quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Gandes atores (7): Leonardo DiCaprio



Em O Aviador, faz o excêntrico Howard Hughes

Leonardo DiCaprio, na minha opinião, divide com Matt Damon um lugar na galeria de grandes atores de sua geração. Nascido em 11 de novembro de 1974 (nativo de escorpião), com 42 anos, é quatro anos mais novo do que Damon.

Como já escrevi em outro post, DiCaprio não está sempre trabalhando com grandes diretores por acaso. Senão vejamos: atuou em filmes de Quentin Tarantino (Django Livre - 2012), Clint Eastwood (Edgar - 2011), Steven Spielberg (Prenda-me se For Capaz - 2002), Woody Allen (Celebridades - 1998) e outros. Com Martin Scorsese, diretor com o qual tem o "casamento" mais bem sucedido, o ator tem sua mais ampla parceria no cinema: foi protagonista de O Aviador (2004), Gangues de Nova York (2002), Os Infiltrados (2006), A Ilha do Medo (2010) e O Lobo de Wall Street (2013). Em Os Infiltrados, aliás, um thriller policial, faz ótimo "dueto" com Matt Damon.

O time de diretores não é pouca coisa e já quer dizer muito. Mas se você assistir a Edgar, O Aviador ou Django Livre, por exemplo, verá que DiCaprio é dos atores que, como já disse em algum lugar, fazem um  filme ser diferenciado, já que seus personagens são dotados de alma. Tire DiCaprio de O Aviador, filme com quase três horas de duração, mas que você não vê passar. Além da excelente trama  e roteiro, que conta a vida do milionário Howard Hughes (1905-1976), o filme tem cenas como  na epifânica sequência em que Hughes/DiCaprio filma (filme dentro do filme) um combate de Hell's Angels, produção de cinema que “na vida real” o empresário lançou em 1930 com estrondoso sucesso ao custo astronômico, para a época, de quase 4 milhões de dólares. A interpretação do ator no filme é magistral.

Em Prenda-me se For Capaz, de Spielberg, um genial falsário, 
Assim como no antológico Prenda-me se For Capaz, de Spielberg, em que interpreta um adolescente genial e fora da lei, perseguido pelo trapalhão policial Carl Hanratty (a cargo do excelente Tom Hanks). O f ilme é baseado na história real de Frank William Abagnale, Jr., um falsário que começou como falsificador de cheques na década de 1960 e, graças a sua genialidade, conseguiu se fazer passar por piloto da Pan Am, médico e advogado. O personagem é uma pessoa com sérios problemas psicológicos e manias, com raízes freudianas profundas. Manifesta uma obsessão – transtorno obsessivo compulsivo (TOC) – que lhe causa horror de pegar em trincos de portas (principalmente banheiros) e cumprimentar as pessoas, situações diante das quais Abagnale/DiCaprio é tomado pelo sincero pânico.

Em Django Livre, uma espécie de western em quadrinhos em forma de filme, ao estilo de Tarantino, que pode levar você à gargalhada ou às lágrimas, DiCaprio faz o vilão: o senhor de fazenda escravagista Calvin Candie. No filme, ele contracena com Jamie Foxx (que faz  Django) e o espetacular Christoph Waltz (atua no ótimo Deus da Carnificina, de Polanski, e Bastardos Inglórios, também de Tarantino).


Como o vilão Calvin Candie, em Django Livre

Escrevi no post anterior já citado (de 2014) que talvez DiCaprio, então com apenas 39 anos, precisasse de um pouco mais de estrada em sua carreira para amadurecer e se tornar realmente um dos grandes. Fazendo pequena correção, parece-me que ele já é.

Se você pesquisar sobre o ator, verá que ele é "mais conhecido" pelos papeis de Jack Dawson, em Titanic, e Romeu, em Romeu e Julieta. Dois filmes menores que não vi nem verei. Também não assisti a O Regresso (dir. de  Alejandro Iñárritu), pelo qual ganhou o Oscar. Quero ver este fime, que une DiCaprio e Iñárritu, diretor de Babel (2006) e 21 Gramas (2003).

A biografia do ator tem uma curiosidade. Segundo consta, seu nome teria sido inspirado, de acordo com sua mãe, porque ele teria dado seu primeiro pontapé quando ela, grávida, contemplava um quadro de Leonardo da Vinci na Itália. Mas essa história precisaria ser checada talvez com o próprio Leonardo DiCaprio...


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Juca Ferreira: "Estamos vivendo um momento em que reina a mediocridade e a boçalidade"


Reprodução/Youtube/Instituto Lula

Conversei ontem com o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. Como “militei” muitos anos em jornalismo cultural, sei bem como a cultura é, ou era (nas redações dos jornais, por exemplo), a primeira coisa a se cortar em épocas de crise.

Não é diferente no Brasil de Temer, com a diferença que aqui e hoje, a devastação é mais generalizada do que talvez jamais tenha sido.

Disse Juca sobre o momento em que chegamos na história:

Acabamos de sair do período mais longo de estabilidade e a democracia mostrou que é um ambiente favorável para o desenvolvimento da cultura brasileira e nós representamos isso (...) ". Agora, a reação da área cultural é enorme, a consciência do negativo.

“(...) Eles agora vêm de novo ceifando tudo o que foi construído, não só na área da cultura, mas nos direitos conquistados, leis trabalhistas, aposentadoria, direitos das mulheres, avanços na relação entre negros e brancos. Eles são devastadores. Como se quisessem nos reduzir a uma republiqueta de banana. “

Sobre cinema brasileiro:

Tudo indica que vão pra cima agora de uma das políticas mais bem sucedidas, que é a do cinema. Só não foram ainda porque a Ancine tem mandato e eles foram obrigados a respeitar o mandato. Mas estão se preparando para atacar também. 

“Só para você ter uma ideia, quando o Lula assumiu, em 2003, eram produzidos menos de dez filmes por ano. Com a política desenvolvida pelo Estado brasileiro – Minc e Ancine –, hoje são 150 filmes por ano.

“(...) O Collor extinguiu a Embrafilme e depois os tucanos não fizeram nada, pelo contrário, partiram da tese de que isso é monopólio dos americanos, que o Brasil não tinha que se meter nesse assunto. Fomos nós, no governo Lula e depois Dilma, que desenvolvemos toda uma política pública de apoio ao cinema, aos artistas, empresas, em todo o território brasileiro.”

A íntegra da entrevista está aqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica



Nebulosa da Águia, também conhecida como M16,
uma das mais famosas imagens do Hubble

“Em 1584, em seu livro De l’infinito universo e mondi, o monge e filósofo italiano Giordano Bruno propôs a existência de ‘inumeráveis sóis’ e ‘inumeráveis Terras (que) giram em torno desses sóis’. Além disso, ele afirmava, baseando-se na premissa de um criador glorioso e onipotente, que cada uma dessas Terras tem habitantes vivos. Por esses e outros delitos blasfemos, Bruno foi queimado na fogueira por ordem da Igreja Católica.”

Esse é um pequeno trecho do capítulo 7 do belíssimo livro Morte no buraco negro e outros dilemas cósmicos, de Neil deGrasse Tyson (editora Planeta), que estou lendo, uma verdadeira viagem pelo conhecimento e o cosmos, e seus infinitos mistérios e maravilhas.

Por exemplo, você sabe o que é aerogel? Está lá na página 103 do livro: “substância estranha e maravilhosa” usada pela NASA na missão Stardust. A meta da Stardust era “descobrir que tipos de poeira espacial existem lá fora e coletar essas partículas sem estragá-las”. O autor então explica o que é o aerogel: “a coisa mais semelhante a um fantasma que já foi inventada. É um emaranhado seco e esponjoso de silício que consiste em 99,8% de nada. Quando uma partícula bate nesse emaranhado a velocidades hipersônicas, ela perfura seu caminho e aos poucos vem a parar, intacta”.

Vamos para um dado científico no capítulo 14, que trata da densidade das coisas: “Quando você sai da galáxia, deixa para trás quase todo o gás, poeira, estrelas, planetas e entulho. Você entra num vazio cósmico inimaginável. Vamos falar do vazio: um cubo d­e espaço intergaláctico de 200 mil quilômetros contém aproximadamente o mesmo número de átomos que o ar que preenche o volume utilizável de seu refrigerador. O cosmos não só ama o vácuo, ele é esculpido a partir dele”.

Mais à frente, num capítulo que fala sobre espectros de luz: “Uma coisa é saber que de vez em quando estrelas de alta massa explodem. As fotografias podem mostrar esse fenômeno. Mas os espectros de raio X e da luz visível dessas estrelas moribundas revelam um esconderijo de elementos pesados que enriquecem a galáxia e podem ser diretamente ligados aos elementos constituintes da vida sobre a Terra. Não só vivemos entre as estrelas, as estrelas vivem dentro de nós”. Isso é astrofísica, mas também poesia.

Outra passagem me remete diretamente a uma cena do filme Interestelar. DeGrasse Tyson afirma nas páginas 166/167 de Morte no Buraco Negro, sobre as sondas enviadas pelo homem ao espaço: “A história da descoberta humana é caracterizada pelo desejo ilimitado de estender os sentidos além de nossos limites inatos. É por meio desse desejo que abrimos novas janelas para o universo (...) as sondas espaciais controladas por computador, que podemos chamar corretamente de robôs, tornaram-se a ferramenta-padrão para a exploração espacial. Os robôs no espaço têm várias vantagens claras sobre os astronautas: são mais baratos de lançar; (...) e não são vivos em nenhum sentido tradicional da palavra, por isso não  podem ser mortos num acidente espacial”.

Eu ia discordar dessa passagem, baseando minha discordância na magnífica cena em que dr. Mann (Matt Damon), em Interestelar, percorre o planeta gelado e sem superfície e diz a Cooper: "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte".

Mas, no livro, logo após falar das supostas vantagens dos robôs sobre o homem, na exploração espacial, Tyson diz: “...Mas até que os computadores possam simular a curiosidade e as centelhas de insight humanas (...) os robôs continuarão sendo ferramentas projetadas para descobrir o que já esperamos encontrar”. Ao contrário do que parecia, isso acaba aproximando sua visão da abordagem do filme dirigido por Chris Nolan, cuja visão sobre o cosmos é claramente antropocêntrica, já que, em Interestelar, o homem é destinado a explorar e talvez conquistar um universo cujo único habitante civilizado e inteligente é (aparentemente) ele mesmo.

Aqui poderíamos voltar a Giordano Bruno (1548-1600) e fazer a analogia com nós mesmos (conosco, para usar um português mais culto, mas obsoleto), para dizer que, em nossa ignorância, talvez façamos hoje o papel que a Igreja Católica fazia no século XVI: acusamos de “hereges” (mas hereges científicos), hoje, os que acreditam em civilizações inteligentes extraterrestres, como os católicos acusavam Giordano Bruno de herege há quatro séculos. Assim é.

Finalizo citando o belíssimo capítulo 22 do livro Morte no Buraco Negro, no qual DeGrasse Tyson discorre sobre... É até difícil falar, porque é uma das coisas mais bonitas que já li. Trata da evolução das reações nucleares das estrelas primordiais: do hidrogênio, que se se funde em hélio, depois em carbono (fundamental à vida), depois em nitrogênio, oxigênio, sódio, magnésio, silício... até o ferro. “À exceção do hélio, que é quimicamente inerte, esses elementos são os principais elementos da vida assim como a conhecemos. Dada a variedade espantosa de moléculas que esses átomos podem formar, com eles próprios e com outros, é provável que eles sejam também os ingredientes da vida assim com não a conhecemos.”

Neil DeGrasse Tyson é um astrofísico conhecido por sua inserção na mídia. Ele apresentou a série de documentário Cosmos, um remake da série original criada por Carl Sagan nos anos 1980.

Carl Sagan, além de tudo o que é, é um personagem intimamente ligado à chamada mensagem de Arecibo. Pesquisem na internet, e vocês acharão informações interessantes.

Seja como for, na minha modesta e humilde opinião, nós não estamos sozinhos.

Leia também:

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar

sábado, 21 de janeiro de 2017

Donald Trump: uma besta ou a besta?


Ou: Considerações acerca de uma incógnita


White House/Twitter

Enquanto assistia à posse do novo presidente dos Estados Unidos, pensamentos contraditórios passavam pela minha cabeça.

Não conseguia chegar a me definir se Trump seria um besta, ou a besta. No primeiro caso, segundo o Michaelis, “Que ou aquele que é grosseiro ou ignorante; burro”. Na segunda acepção, de acordo com o mesmo dicionário, termo bíblico que significa “animal simbólico, tido como responsável por grandes catástrofes” e que pode levar o mundo ao Apocalipse.

No discurso de posse, o 45° presidente dos Estados Unidos seguiu a receita da campanha vencedora e, depois de elogiar Obama e Michelle pela postura “magnífica” no processo de transmissão do cargo, logo assumiu sua personalidade truculenta e disparou: “Não estamos apenas transmitindo o poder de uma administração a outra, ou de um partido para outro, estamos transferindo o poder de Washington, DC, e devolvendo para vocês, o povo. Por tempo demais um pequeno grupo na capital da nação recebeu os louros do governo enquanto as pessoas pagaram pelo custo”.

Trump é um louco ou um demônio? Nenhum dos dois. É o resultado de inúmeros fatores conjugados. Logo após a eleição que colocou o republicano na Casa Branca, em 9 de novembro, Glenn Greenwald, no The Intercept, escreveu o que para mim é o melhor texto sobre os porquês da eleição que surpreendeu analistas e apostadores do mundo todo, principalmente os ligados ao establishment democrata norte-americano, texto que você pode ler na íntegra aqui: Democratas, Trump e a perigosa recusa em entender as lições do Brexit.

Dois trechos do texto acima mencionado:

1)as elites formadoras de opinião estavam unidas de uma forma extremamente incestuosa e tão distantes da população que decidiria essas eleições, sentiam tanto desprezo por ela, que não foram capazes de observar as tendências em favor de Trump e, além disso, aceleraram essas tendências involuntariamente com seu próprio comportamento”.

2)a escolha conivente que o Partido Democrata fez décadas atrás: abandonar seu apelo popular e se tornar o partido dos tecnocratas proficientes, dos gerentes do poder da elite pouco benevolentes. Essas são as sementes de cinismo e interesse próprio que foram plantadas, e agora essa plantação está sendo colhida. (E este trecho faz, não tão vagamente assim, lembrar o nosso Partido dos Trabalhadores no processo que – embora por meio de um golpe – o apeou do poder em 2016.)

Acredito que, se não se comportar de modo minimamente aceitável de acordo com que esperam dele os poderes ocultos e não ocultos dos Estados Unidos, a Roma contemporânea potencializada com um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo várias vezes, Donald Trump será igualmente apeado do poder, de uma forma ou de outra, e não acredito que com gentileza. Como me disse o professor Luis Fernando Ayerbe, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp: “O receio do establishment é pelo estrago que Trump pode causar, por incompetência, improvisação, falta de visão estratégica. Ele preocupa fundamentalmente os setores do establishment tradicional, representados pelos que se reúnem em Davos, as chamadas elites orgânicas do capital" (a matéria da RBA com Ayerbe está aqui).

Embora eu tenha a tendência de não desconsiderar nem mesmo forças místicas que giram em torno do poder neste mundo de matéria densa, e apesar de em alguns momentos me parecer que Donald Trump pode até mesmo ser a besta, penso que ele está mais para um besta alucinado mesmo, do qual o povo americano pode se cansar bastante cedo, e aí o establishment terá a faca e o queijo na mão.

Seja como for, para nós brasileiros (e esta é outra coisa em que cada vez acredito mais), é provável que, se Donald Trump fosse presidente dos Estados Unidos no ano passado, Dilma Rousseff não teria sido deposta, pelo menos não com tanta facilidade. Trump parece não estar tão preocupado em interferir na vida de outros países como os “falcões” Obama e Hillary Clinton, como lembrou Ayerbe na matéria acima linkada. O que, aliás, pode até mesmo ser um dos motivos da irritação do establishment com o novo presidente. 

Teori Zavascki e o moralismo da esquerda brasileira


Nelson Jr./STF
As discussões, teses, análises e interpretações em torno da morte do ministro do STF, relator da Lava Jato no Supremo, vão continuar por muito tempo. No caso, a teoria da conspiração se justifica (e faço questão de dizer isso porque eu não sou adepto de teorias da conspiração, mas o caso Teori é muito estranho).  É bastante difundida a idéia de que coincidências não existem, seja sob a ótica espírita, seja sob a de analistas políticos racionalistas de credibilidade, para citar apenas duas vertentes.

O propósito deste post é só registrar meu espanto pela postura moralista, machista (e portanto injustificável) de setores da esquerda brasileira que usam como argumento contra Zavascki a "informação" de que ele estaria na companhia de uma (traduzindo) garota de programa no avião que caiu. São usados eufemismos, mas a tradução (maldosa) é de que ele estaria no avião na companhia de uma prostituta.

Quem difunde essa "informação" como argumento precisa refletir sobre seu papel, que não é, neste caso, digno de ser chamado de esquerdista. Quem difunde essa "informação" é direitista, mesmo sem saber. Roland Barthes afirmou que a opressão do homem pelo homem não se extinguiu com governos de esquerda (Rússia, Cuba etc.) porque a opressão está na linguagem, e não no sistema político.

Discuta-se o papel de Teori Zavascki enquanto relator da Lava Jato politicamente, suas relações com o empresário dono do avião etc. Ele tinha relações suspeitas com empresários? Que se investigue. Mas ninguém tem nada a ver com sua vida pessoal.

Quem se considera de esquerda e julga Teori Zavascki por supostamente estar na companhia de mulheres moralmente "suspeitas" no avião está fazendo o jogo da TV Globo. Mas, muito pior do que isso, reproduz uma visão moralista, machista e imbecil que assola o país.

Afinal, o que os esquerdistas têm contra as prostitutas?

sábado, 14 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre Interestelar



Cooper (Matthew McConaughey) com dra Brand (Anne Hathaway )

Depois de rever Interestelar, confesso ser necessário escrever um segundo post sobre este belo filme, que é um dos que hoje eu colocaria entre os dez de uma lista de DVDs que levaria a uma ilha deserta (onde tivesse como reproduzir, é claro), para fugir da solidão.

Também minha crítica ao diretor Chris Nolan foi talvez um pouco exagerada. Meu amigo Emerson Lopes esclareceu, via Facebook, que Nolan já declarou que Interestelar foi uma singela homenagem a 2001, de Kubrick. Humildade faz bem. É evidente que minha ranzinzice do primeiro post não tem a capacidade de diminuir o trabalho de Nolan como diretor do filme.

O fato é que Interestelar emociona.

O som como que primevo a perpassar o filme; o som metafísico quando aparece a nave Endurance; o som que marca o tempo no planeta de Miller, som de relógio que dá uma carga de dramaticidade extrema à cena (uma das mais espetaculares do filme) naquele planeta de água onde cada hora equivale a sete anos terrestres  e onde a gravidade é 130% a da terra.

A discussão sobre o tempo. A impossibilidade de mudar o passado.

O diálogo do astronauta Cooper (Matthew McConaughey) com a filha Murph (Mackenzie Foy): "Só estamos aqui como lembrança dos filhos... Quando você tem filhos, você se torna fantasma do futuro deles", diz ele à filha inconformada pela partida do pai para uma jornada talvez sem retorno.

A sequência da partida de Cooper, da fazenda para o espaço.

A sequência do relógio quando Murph entende o código binário.

Achados. Como Cooper, na varanda de sua fazenda com o sogro Donald (John Lithgow), em cena que depois se repete quase exatamente, mas num contexto em que seu interlocutor já não é humano, mas um robô.

O desespero para comunicar à filha Murph os dados quânticos em alguma região da quinta dimensão.

A busca humana por sua perpetuação diante de um cenário de morte em que a Terra está se extinguindo ("A humanidade nasceu na terra mas não está destinada a morrer aqui").

No post anterior eu critiquei o fato de o filme necessitar de um vilão. Mas até isso é justificável, já que uma pessoa na situação de dr. Mann (hibernando num tanque em um planeta onde a vida é impossível) facilmente enlouqueceria, mesmo sendo um genial cientista. Aliás, a interpretação de Matt Damon é magistral. Até mesmo dentro de um capacete sua expressividade é impressionante. "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte", diz ele a Cooper enquanto exploram o planeta gelado e morto.

As interpretações dos atores, até mesmo de Anne Hathaway como dra. Brand (mea culpa), que se não é nenhuma Meryl Streep, pelo menos tem uma atuação discreta. No post anterior creio que fui um pouco inclemente na minha crítica com a atriz.

Três atrizes interpretam a filha de Cooper e cientista Murph. Mackenzie Foy (na infância), Jessica Chastain (juventude e fase adulta) e Ellen Burstyn (na velhice). Três belas interpretações. Isso para não falar de Michael Caine como dr. Brand, pai da astronauta.

Os robôs TARS e CASE, que podem ser programados para ter senso de humor e graus de sinceridade, que parecem aranhas geométricas inteligentes e desempenham papel importante como personagens.

A fotografia deslumbrante do filme, combinada à música.

O conteúdo científico e a onipresente Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, assim como outros conceitos, entre os quais do "buraco de minhoca", e elementos cósmicos como o buraco negro.Li alguns textos idiotas na "grande mídia" que procuravam defeitos científicos no filme. Todos textos rasos e estúpidos, escritos por gente que não conhece nada de ciência. (A má-fé e/ou ignorância da mídia não tem a ver apenas com a política.) 

Li também um tal crítico num blog falando mal do filme por sua "inconsistência tonal". Provavelmente um acadêmico mal humorado com problemas no fígado que quer aparecer em cima de algo infinitamente maior do que ele. Deve adorar Gritos e Susurros de Bergman.

***

Leia também: Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Marco Aurélio sobre impeachment: "O que houve foi uma deliberação das duas casas do Congresso"


Reproduzo aqui, ipis litteris, a entrevista que fiz hoje, para a Rede Brasil Atual 


Carlos Humberto/STF


O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, refuta a ideia de que a mais alta corte do país tenha sido conivente com o impeachment, segundo a expressão jurídica, ou golpe, de acordo com o termo político utilizado pelos representantes da esquerda brasileira. “O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior. E não estamos engajados em qualquer política governamental”, disse Marco Aurélio à RBA.

A reversão do impeachment de Dilma Rousseff é defendida como viável por juristas como o procurador da República Eugênio Aragão.

Empossado em 13 de junho de 1990, o ministro Marco Aurélio discorda de que o país sofreu um golpe. “Não, de forma alguma”, diz.

Como o sr. avalia a tese de que a única forma de o país sair da crise é a anulação do impeachment, cujo julgamento está no STF?

Se está no STF eu não posso antecipar qualquer ideia. Vamos aguardar. Mas, evidentemente, foi uma fase que ficou para trás. Precisamos esperar. Não conheço inclusive a articulação que se faz. Eu não poderia mesmo emitir (opinião) por uma questão de dever profissional.

Qual articulação?

A articulação nas ações. Há vários mandados de segurança no Supremo.

Há muito questionamento sobre por que o Supremo não se pronuncia, já que o impeachment é um caso muito importante. Por quê? Poderíamos explicar?

Porque a sobrecarga é inimaginável, considerando uma Suprema Corte. Nós não somos mais operadores do Direito, nós somos estivadores do Direito. É algo que, se você revela, por exemplo, a um integrante de um tribunal estrangeiro, a esse nível, ele pensa até que é irreal. Por isso é que viemos apagando simplesmente incêndios, e a jurisdição fica prejudicada em termos de celeridade.

Alguns juristas afirmam que, por omissão, o STF participa do que eles chamam de golpe. O sr. teria algum comentário sobre isso?

Não, de forma alguma. De forma alguma. Primeiro, não cogito, em si, de golpe. O que houve foi uma deliberação, e deliberação das duas casas do Congresso. Em segundo lugar, nós ocupamos uma cadeira de envergadura maior. E não estamos engajados em qualquer política governamental. A política presente no Supremo é institucional e voltada a tornar prevalecente a lei das leis da República, que é a Constituição.

O Legislativo representa a sociedade hoje?

É a premissa, e eles devem estar atentos aos anseios de sociedade.

Mas parece que não estão, não é?

Não, eu não emito impedimento a respeito. Que cada qual faça a sua parte. E apenas digo que em época de crise devemos guardar princípios, sendo até um pouco ortodoxos nessa guarda. 

Como um dos ministros mais antigos do STF, o sr. vislumbra alguma saída para o país, que continua mergulhado numa crise profunda?

Nós estamos sangrando por motivos diversos. Evidentemente, devemos procurar correção de rumos, dias melhores para o povo brasileiro.

Procurar um outro sistema político?

Não, precisamos ter uma compenetração maior, principalmente da parte dos homens públicos quanto ao avanço cultural.

Avanço cultural que no nosso caso continua no século passado...

Pois é, e com um mercado desequilibrado em que os jovens não têm a menor chance de se realizarem. Isso é preocupante. Nós temos um desequilíbrio marcante entre empregos e mão de obra. Houve um crescimento demográfico desenfreado. Basta lembrar o chavão da Copa de 1970: “90 milhões de brasileiros em ação”. Hoje, em plena crise, somos quase 210 milhões, um crescimento de mais de 130% em cerca de 45 anos.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O Brasil de 2016: o país do golpe, do desencanto e da barbárie





Alguns amigos não entendem muito bem minha desesperança com a política e com o Brasil. A questão é que esse desencanto não tem a ver apenas com política, mas com o nível moral (espiritual) em que está ancorado este país, este povo, e não apenas a chamada classe dominante, as "elites" - "não há vítimas inocentes" (Sartre). Tenho amigos que desprezam a religiosidade, outros que dela zombam, mas outros alimentam as coisas do Espírito.

Para ilustrar o que quero dizer, repito o que disse no Facebook: A selvageria assassina materializada no metrô de SP esta semana (quando o vendedor Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi assassinado por dois monstros por defender travestis agredidas por esses mesmos monstros) só mostra algo que tenho pensado e falado para as pessoas mais próximas: o Brasil é um lixo de país.

Eu sou espírita. Tenho amigos católicos e de religiões afro. Principalmente entre os católicos, há entre eles quem tenha sido barbaramente torturado durante a ditadura iniciada em 1964. Depois de décadas de luta pela democracia, vimos o que aconteceu em 2016: um golpe sórdido, mas no entanto tão fácil como tirar pirulito da boca de uma criança.

Esse trágico desenlace (que pode fazer o país retroceder décadas do pouco avanço que conseguiu depois de séculos de exploração feudal) mostrou quão pusilânime é o chamado "povo" brasileiro. Perdoem-me, mas, de certa maneira, os monstros assassinos do metrô são como que a cara moralmente radicalizada desse mesmo povo. Claro, só psicopatas como os assassinos do metrô teriam coragem de protagonizar a barbárie, mas muitos e muitos a apoiam. Sim, apoiam. Basta ler comentários em sites e redes sociais.

Vejo esse povo nas ruas, no supermercado, na padaria. Ou vocês acreditam que esse povo vai sair às ruas, às centenas de milhares, defender... a democracia, os direitos do cidadão e do trabalhador?!

***

Estou terminando de ler um livro sobre o qual já escrevi neste blog, Os Cátaros e a Heresia Católica, de Hermínio C. Miranda . É uma abordagem historiográfica (sob um ponto de vista espírita) muito interessante sobre os cátaros, um povo que tentou implementar no mundo (a partir da Europa, particularmente no sul da França), entre os séculos 12 e 13 de nossa era, o cristianismo do Cristo, e que foi sufocado e eliminado brutalmente pela Igreja Católica de Roma.

Os cátaros, considerados hereges pela Santa Sé, foram perseguidos pelas Cruzadas e pela Inquisição implacavelmente, humilhados e queimados vivos em fogueiras enormes em nome de... Cristo!, eles que pretenderam justamente defender as ideias trazidas pelo próprio Jesus. Morreram queimados como morreram apedrejados e crucificados e nas arenas romanas os primeiros cristãos, no início.

Digo isso como uma livre-associação.

Encerro dizendo: depois de tudo o que aconteceu politicamente em 2016, notícias como a desse crime bárbaro no metrô de SP apenas reforçam que este país é isso mesmo, um lixo. Desculpem a sinceridade. Mas, se fosse possível, eu gostaria de fazer um acordo com Deus: que na próxima encarnação me permita nascer em outro lugar. Neste aqui não acredito mais.

Cada vez mais acredito que só há uma solução: a transformação interior, a partir da qual se pode espraiar a transformação do mundo. Como ensinaram entidades como Jesus, Buda, Mahatma Gandhi e outros.


sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal, segundo Carlos Drummond de Andrade




Organiza o Natal*

Carlos Drummond de Andrade


Marc Chagall, Solitude (1933) - Óleo sobre tela

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.

*Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

Ainda sobre religiosidade:

Pensata sobre Maria Madalena a partir de uma notícia

Os cátaros, a política, o espiritismo

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Duas passagens que tive com Dom Paulo Evaristo Arns


Reprodução/Youtube


Não vou repetir dados e informações biográficas sobre dom  Paulo Evaristo Arns, que foram divulgadas à exaustão hoje (ontem).

Quero apenas contar duas passagens de minha vida em que tive a honra de, mesmo que rapidamente, trocar algumas palavras com esse grande homem.

Uma foi em 2000, no dia da eleição que levou Marta Suplicy à prefeitura de São Paulo. Chegávamos à PUC-SP, para votar. Quando passávamos pela entrada da universidade, à rua Monte Alegre, um carro parou e dele desceu dom Paulo Evaristo Arns. Surpresos com a feliz coincidência (mas dizem que coincidências não existem) dirigimo-nos a ele, dizendo algo como "veio votar, Dom Paulo?", só para ter algo o que ouvir dele.

Com o olhar carismático e expressivo, e o falar calmo característico dos homens que têm todas as coisas para dizer, e, sabedores disso, sempre falam sem pressa, ele fixou os olhos nos olhos da Carmem e disse: "chegou a hora das mulheres", com um sorriso convicto e alegre.

A outra ocasião foi ainda antes, cerca de um ano depois da eleição de Luiza Erundina (1988). Era um evento no Tuca, o teatro da PUC de tantas histórias, e eu, jornalista ainda muito jovem, me candidatei a fazer uma pergunta ao arcebispo. Lembro que, diante daquela sumidade que tanto e sempre respeitei, ao dirigir-me para pegar o microfone eu tremia. A insegurança de jovem  jornalista cresceu enormemente naquele momento, naquela situação. É que a gente se sente pequeno às vezes, quando está diante de alguém espiritualmente poderoso como ele.

Minha pergunta foi o que ele podia comentar sobre o papel decisivo da Igreja, a qual ele comandava em São Paulo como arcebispo, na eleição de Erundina. (No dia da eleição, a Folha de S. Paulo dera uma matéria de página inteira, sob o título: "Igreja libera fiéis para voto em Erundina" -- cito o título de memória, que pode ser diferente em algum detalhe, mas era esse essencialmente. Não há dúvida de que Dom Paulo foi decisivo naquela eleição.)

Hoje, 27 anos depois, não me lembro nem mesmo qual foi exatamente a resposta de Dom Paulo. Mas foi uma resposta política, como se dissesse que o que tinha de ser feito já fora feito.

Enfim, dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos, terminou sua missão. Uma grande missão, cumprida com honra, serenidade e disposição para ajudar a melhorar o mundo. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood



Anne Hathaway: cenas espetaculares, atuação medíocre

Sou apaixonado por filmes de ficção científica. Infelizmente, são poucos os que se salvam. Dos que vi, 2001: Uma Odisseia no Espaço (direção de Stanley Kubrick de 1968 - baseado no livro de Arthur Clarke), é o melhor. Não à toa, já que Kubrick é um gênio que soube usar as benesses de Hollywood para fazer uma obra definitiva no cinema. Blade Runner (Ridley Scott - 1982) é outro. E podemos pôr um etcétera aí.

Mas quero falar, brevemente, do filme Interestelar (no original, Interstellar), de 2014, dirigido pelo obscuro Christopher Nolan, o tipo de diretor que não faz diferença, já que, se não fosse ele, outro faria a mesma coisa -- mais ou menos melhor ou pior.

Mas o filme, como resultado, é interessante e inteligente, descontando os hollywoodianismos (a tendência ao happy end, a necessidade do vilão, da luta física etc.).

Interestelar traz à ficção científica no cinema abordagens que a ciência dominante, a ciência canônica, não considerava comprováveis há apenas algumas décadas, como o buraco de minhoca, que em inglês é wormhole (este termo, na legenda do canal HBO, não é traduzido - o termo inglês worm significa mais "verme" do que "minhoca"). O buraco de minhoca continua sendo uma teoria contestada, mas já é considerada mais do que mera teoria. Outro conceito abordado pelo filme é o do buraco negro.

De fato emociona a maneira como o filme mostra o passado como uma dimensão irrecuperável, inclusive considerando Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade. Não há na física a possibilidade de você mudar o passado. O filme Interestelar joga fora abordagens tolas como a do filme De Volta para o Futuro (filme fascinante, mas tolo, do ponto de vista da Física). 

Interestelar é um filme antropocêntrico, como a visão do cientista Marcelo Gleiser, por exemplo. Ou seja, incorpora a concepção de que o ser humano é a única entidade comprovadamente (mas comprovada pelo homem) inteligente do cosmos e está destinado a povoar o universo. É  uma tese hoje contestada. Há setores na Ciência que discordam de que o ser humano seja o único inteligente no cosmos. O problema é que não há provas de que não estamos sós. Mas há muitas indicações de que está prestes a ser comprovado que não, nós não somos os únicos: o ceticismo de Marcelo Gleiser está ultrapassado.

Para finalizar, a produção de Interestelar resolveu muito mal o papel da astronauta dra. Brand, interpretada pela péssima Anne Hathaway, que mais parece uma coelhinha da Playboy do que uma cientista ou uma astronauta. Mesmo assim, ela protagoniza cenas espetaculares, como quando a missão da Nasa chega a um planeta estranho coberto por água, e os astronautas são surpreendidos por... Mas não vou contar.

Já o galã Matthew McConaughey, como o astronauta Cooper, foi uma aposta vencedora. Está muito bem no papel do comandante da missão destinada a encontrar um destino para a espécie humana para além de nossa galáxia. De resto, o desempenho de Jessica Chastain (no papel de Murph como filha adulta de Cooper) é muito superior ao da medíocre Anne Hathaway como a protagonista dra. Brand. No filme, o excelente Michael Caine faz o pai da dra. Brand.

Infelizmente, como é Hollywood, os pecados se sucedem. Por exemplo: o filme tem um elenco estelar, com o perdão do trocadilho. Além de Michael Caine, traz como coadjuvante Matt Damon, uma real estrela da nova geração de Hollywood (junto, por exemplo, com Leonardo DiCaprio). Um luxo, ter Matt Damon como coadjuvante. Só que, ao invés de aproveitar o personagem de Matt Damon, a produção-direção, na minha modesta opinião, desperdiça a chance. Porque Hollywood precisa de heróis e vilões, precisa do bem e do mal, e jogam fora o luxo de ter o ator em seu elenco.

Seja como for, Interestelar é um filme bastante interessante. Merece ser visto. Assista.

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Leia mais: Um pouco mais sobre Interestelar

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Os cátaros, a política, o espiritismo

"Renegar a política é renegar a humanidade"
(Marco Ferreira, por e-mail)



"Quem sabe estudando as razões pelas quais tanto se matou por mera discordância ideológica possamos alcançar mais adiante um estágio evolutivo, em que se discorde tolerantemente."

A frase não é sobre o Brasil de Michel Temer ou sobre alguma ditadura latino-americana. É do livro Os Cátaros e a Heresia Católica, de Hermínio C. Miranda, que estou lendo.

Cátaros (do grego καϑαρός - katharós - "puro" ou "limpo") são um povo cristão que, em torno do ano 1.200, principalmente no sul da França, foi perseguido e exterminado pela Igreja Católica e suas Cruzadas, sob todas as formas de massacres, torturas e execuções, incluindo fogueiras em que se queimavam dezenas de pessoas de todas as idades.

Acusados de hereges, os cátaros foram perseguidos por pregarem um cristianismo não contaminado pela doutrina católico-romana, corrupta, defensora dos interesses terrenos, que destruiu incalculável patrimônio histórico e todo conhecimento (livros, culturas e povos) que de alguma forma ameaçava seu império. O cristianismo dos cátaros seria uma doutrina mais próxima de Cristo, personagem do qual, de resto, pouco se sabe.

Esse Cristo na realidade é uma entidade dual, contraditória - considerando as diferentes versões ou interpretações. As histórias em torno dele expressam posições antagônicas: ao mesmo tempo em que recomenda, a quem levar uma bofetada, oferecer a outra face, ele declara, segundo Mateus (10:34): "Não penseis que vim traz paz à Terra; não vim trazer paz, mas espada".

Qual é o verdadeiro Jesus? O construído por Roma com certeza não é o de Pier Paolo Pasolini, diretor do belíssimo Il Vangelo secondo Matteo (1964), cujo Cristo veio trazer a espada.

Se, de acordo com a igreja romana, Jesus foi concebido por uma mãe virgem, os relatos históricos a que se tem acesso (filtrados por 2 mil anos e quase totalmente apagados pela genocida "Igreja de Pedro") dão margem a interpretações bem menos fantasiosas. Por exemplo: Maria Madalena, mulher reduzida a uma prostituta pela "Tradição", teria sido, na verdade, companheira e amante de Jesus, e inclusive mãe de descendentes seus. Tomé, presumem intérpretes, era irmão de Jesus. Ou, pelo menos, um outro, como diria Borges.

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Papa Gregório IX instituiu a "Santa Inquisição"
"A campanha militar (contra os cátaros) encerrou-se tecnicamente com a tomada de Montségur, em 1244, onde foram queimados vivos mais de 200 cátaros, numa só fogueira gigantesca, que iluminou os céus com as chamas do ódio e deixou espalhadas no chão da história 'as cinzas da liberdade', na expressão que Michel Roquebert colocou no título de um de seus livros", escreve Hermínio C. Miranda.

A "Santa Inquisição" foi instituída pelo "santo" Papa Gregório IX, em 1233, ou seja, 11 anos antes do extermínio definitivo dos cátaros.

Os Cátaros e a Heresia Católica é pois uma interessante abordagem histórica. Como o autor é espírita, sua análise do tema passa por associações que, segundo ele, estranhamente começaram a ser percebidas na Europa, particularmente na Inglaterra, sete séculos depois do extermínio dos cátaros, em meados do século XX. Essas associações apontariam para evidências espiritualistas relacionadas à reencarnação.

Os cátaros também são conhecidos como albigenses, em referência à cidade francesa de Albi, onde se considera que se originou esse movimento.

Ao pesquisar questões relativas aos cátaros, é também muito interessante saber que havia sinais de inegável familiaridade entre esse povo e os Cavaleiros Templários, também perseguidos pela Inquisição de "tenebrosa memória", como diz o autor do livro.

As pessoas fazem confusão entre Templários e Cruzados. É preciso pesquisar um pouco. Suas histórias se imbricam, mas não se confundem.

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Todavia, as sombras do passado e as farsas da história oficial dos séculos não me afastam da minha própria história. Eu quase poderia dizer que prefiro ler Truman Capote, J. D. Salinger ou Graham Greene, que são mais próximos do que eu sou, embora já estejam velhos. Mas acho melhor não dizer. Nos tempos atuais, já não se sabe o que é velho ou o que é novo.


*Publicado originalmente em 26 de novembro de 2016, à 00:56

"De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeã da Copa Sul-americana"




O Atlético Nacional da Colômbia solicita, por meio de nota oficial em seu site, que o título da Copa Sul-Americana 2016 seja entregue à Chapecoense.

Diante da tristeza, da tragédia e da injustiça que vitimou o clube, fica uma notícia consoladora sobre tudo isso. Injustiça porque a Chape é um clube médio transformado em exemplo de gestão, e por isso ascendeu da série D à A e estava numa final internacional, o que nunca um clube catarinense havia conseguido.

E o  Atlético Nacional mostra grandeza. Abaixo a nota do clube colombiano na íntegra.

"Atlético Nacional solicita a Conmebol que el título de la Sudamericana sea entregado a Chapecoense"

"El dolor embarga rotundamente nuestros corazones e invade de luto nuestro pensamiento. Han sido horas lamentables en las que hemos estado consternados con una noticia que nunca quisimos haber escuchado. El accidente de nuestros hermanos del fútbol de Chapecoense nos marcará de por vida y desde ya dejará una huella imborrable en el fútbol latinoamericano y mundial. Todo esto ha sido completamente inesperado, por eso el dolor. Se trataban todos ellos, futbolistas, Cuerpo Técnico, periodistas y tripulación, de personas con muchos sueños, por eso el llanto.

"El lamento mundial se ha hecho extensivo también a toda la familia Verdolaga quienes desde sus patrocinadores, su Junta Directiva, su Cuerpo Técnico, sus jugadores, su parte administrativa y su afición, han manifestado el desconsuelo y la desazón por lo absurdo. La solidaridad no se hizo esperar y de nuestra parte acompañamos de forma rotunda el padecimiento de todos los hermanos que nos abandonaron quienes junto a sus familiares y nosotros, compartíamos una ilusión grande de ser campeones continentales de la Copa Sudamericana.

"Luego de estar muy preocupados por la parte humana pensamos en el aspecto competitivo y queremos publicar este comunicado en donde Atlético Nacional invita a Conmebol a que el título de la Copa Sudamericana le sea entregado a la Associacao Chapecoense de Futebol como laurel honorífico a su gran pérdida y en homenaje póstumo a las víctimas del fatal accidente que enluta nuestro deporte. De nuestra parte, y para siempre, Chapecoense Campeón de la Copa Sudamericana 2016
."

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

São Paulo em imagens – Viaduto Santa Ifigênia


O documentário abaixo, de Alexandre Maretti, em pouco menos de dez minutos, conta uma vasta história. Grande como a de um livro com seus personagens a compor a cena brasileira. História revelada em sucessão de quadros da cidade imensa, concentrada em um viaduto, mergulhada em amor e injustiça, em desigualdade, mas também em fraternidade e esperança.

Movimento. Som dialogando com as imagens. Meio Cinema Novo, meio expressionismo.

sábado, 29 de outubro de 2016

Grandes atores (6): Anthony Hopkins


Fotos: Reprodução
Como o imortal Hannibal Lecter
Já comentei sobre esse monstro da arte dramática num post em que juntei outros monstros (Gene Hackman, Marlon Brando, Rod Steiger). Mas Anthony Hopkins merece um post à parte. Claro que os outros aqui citados também. É que vi anteontem um filme totalmente descartável, que entretanto me remeteu diretamente à infância: A Máscara do Zorro (1998, dirigido pelo medíocre Martin Campbell, diretor hollywoodiano encarregado apenas de executar roteiros pré-fabricados), no qual Hopkins interpreta Don Diego de la Vega/Zorro. Na infância, o Zorro da série de TV que tinha Guy Williams no papel do herói e o eterno sargento Garcia era um de meus programas favoritos na telinha.

Mas, voltando, apesar de A Máscara do Zorro ser um filme muito ruim (uma ideia boa, mas mal aproveitada), com todo tipo de soluções comerciais e clichês made in Hollywood, ver Hopkins compensa: tudo vale a pena se a alma não é pequena. Curiosamente, algo me faz sempre associar esse ator britânico nascido em Port Talbot em 1937 ao nova yorkino Jack Nicholson, coincidentemente nascido no mesmo ano. Porém, apesar da grandeza de Nicholson, acho Hopkins superior.

Enquanto o americano, de certa maneira, é freqüentemente ator de si mesmo, na medida em que seus personagens costumam ser um pouco, sempre, o próprio Nicholson, o inglês parece ser mais capaz de ser tanto um padre, com suas expressões cândidas e santas, como um irremediável romântico ou um psicopata de inteligência sobrenatural e mente fria.

É o caso do papel do serial killer Hannibal Lecter, em O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991), um dos grandes thrillers da história do cinema. No filme, Hopkins incorpora o espírito de uma criatura que passa a existir graças ao talento assombroso do ator. Nesse sentido, ele opera na arte dramática o que, na literatura, apenas grandes escritores são capazes de fazer: dar vida a um personagem. Mais do que isso, dotá-lo de alma, de tal modo que é como se fosse um ser real.


Jodie Foster, como a policial Clarice, cujo mestre (e sombra) é Lecter

Hannibal Lecter é um desses personagens do qual não se esquece jamais. Como já escrevi no post citado acima, o personagem Lecter se transforma no mestre da policial Clarice Starling exatamente como o ator Hopkins se transforma no mentor de Jodie Foster, que a interpreta. Isso, de um ator (atriz) monstro parecer conduzir aqueles com os quais contracena, é comum no cinema e no teatro. É com uma fascinação ao mesmo tempo iluminada e sombria que Clarice/Foster interage com o criminoso Hannibal/Hopkins. Isso não se daria se o ator fosse outro, ou um ator menor. Provavelmente o filme sequer teria brilho ou importância.

Como também já escrevi, esse "é um filme paradigmático de uma grande atuação, porque Hopkins opera no personagem uma transformação que vai da brutalidade à doçura, da contemplação à explosão assassina, e ele expressa essas nuances em sua face como se fossem, cada uma, a face mesma da brutalidade, da doçura, da contemplação e da selvageria". É uma das maiores atuações que já vi no cinema.


Como Don Diego de la Vega/Zorro, único motivo para ver o filme

A relação mestre-discípulo da qual falei acima, que se dá entre Hopkins e Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, no original em inglês), acontece também em A Máscara do Zorro, entre o mesmo Hopkins e Antonio Banderas, que é muito bom ator, mas perdeu muito de seu brilho depois de deixar a Espanha (onde atuou em vários filmes sob a direção de Almodóvar) e se transformar num ator secundário de Hollywood, apesar de eu ter lido, não lembro onde, que foi como Zorro que Banderas atingiu importância internacional. Importância em bilheteria, apenas, e decadência como ator.

Como o professor Van Helsing, em Drácula
Em Drácula de Bram Stoker  (1992), do grande Francis Ford Coppola, Hopkins faz o bondoso e sábio professor Abraham Van Helsing, a antítese de Hannibal Lecter, já que é ele o portador do conhecimento capaz de combater o mal.

Em Drácula, é curioso notar que Hopkins não tem a importância dos filmes citados neste post ou em outros. Mas isso acontece por um motivo simples: é que não é possível, dada a força do personagem central, o vampiro, qualquer outro se sobrepor a ele. Gary Oldman, de resto, como Drácula, está excelente no papel, assim como Winona Ryder no papel da amada Mina Harker. O que, de resto, não é nenhuma novidade, já que Coppola é um dos maiores diretores de ator do cinema.

 Leia também, da série Grandes Atores: